
Fera Palace Hotel
O primeiro hotel de luxo do Nordeste renasce no coração de Salvador — um ícone da hotelaria brasileira que combina memória, arquitetura e gastronomia em quase um século de história.
Salvador vive um novo momento no turismo nacional. Nos últimos anos, a capital baiana voltou a ocupar posição de destaque entre os destinos mais desejados do país, impulsionada por investimentos que vêm transformando o Centro Histórico. Nesse cenário, a reabertura do Fera Palace Hotel, em 2017, marcou um capítulo importante. Instalado na tradicional Rua Chile — considerada a primeira rua do Brasil —, o hotel resgata a história do antigo Palace Hotel, inaugurado em 1934 como o primeiro hotel de luxo de Salvador e de todo o Nordeste.
Construído pelo comendador Martins Catharino, o edifício de oito andares chamou atenção desde o início por sua arquitetura singular: esquina triangular e fachada inspirada no Flatiron Building, de Nova York. Durante décadas, foi palco de encontros históricos — pelo lobby circularam Carmen Miranda, Grande Otelo, Pablo Neruda e Orson Welles, e o cassino do primeiro andar serviu de cenário para a adaptação cinematográfica de Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado. Com o tempo, porém, o hotel entrou em declínio e fechou as portas no fim da década de 1980.

O renascimento veio quando o grupo Fera Investimentos, liderado pelos fundadores Antonio Mazzafera e Marcelo Faria Lima, assumiu a recuperação do edifício. O projeto arquitetônico ficou a cargo do dinamarquês Adam Kurdahl, do escritório Spol Architects. Como a fachada é tombada pelo IPHAN, o processo exigiu trabalho minucioso: os 230 adornos externos e as 640 janelas de madeira maciça foram restaurados respeitando a identidade original.
O resultado equilibra passado e presente. No lobby, o estilo Art Déco dialoga com a cultura baiana: piso em mosaico preto e branco, lustres imponentes e esculturas da artista plástica Nádia Taquary, produzidas com madeira, búzios, palhas, miçangas e metais, em referência à religiosidade afro-baiana. O antigo armário de correspondência atrás da recepção foi mantido como homenagem à história do prédio.

Em 2026, o Fera iniciou nova fase gastronômica com o restaurante Arento, dedicado a peixes e frutos do mar — um tributo ao encontro entre a Bahia e o sul da Itália, inspirado na avó calabresa de Mazzafera. A cozinha é comandada pelo chef Peu Mesquita, formado pelo Instituto Italiano de Culinária e com passagem pelo Piazza Duomo, três estrelas Michelin. "O Arento é uma cozinha de mares. Trabalhamos com peixes frescos, frutos do mar e produtos sazonais, sempre valorizando o tempo de cada ingrediente", explica o chef.
O hotel conta com 81 quartos, cada um com composições próprias de cores e mobiliário: pisos de taco e mármore preservados, paleta em tons pastel característica do Art Déco, materiais regionais como linho, sisal e algodão, e fotografias do artista baiano Akira Cravo pelos corredores. Entre os espaços mais disputados está o rooftop, com vista panorâmica para a Baía de Todos os Santos, piscina de borda infinita de 25 metros revestida com cerâmica artesanal e o Fera Lounge, que ao entardecer se transforma no cenário do restaurante Fera Rooftop.
Em 2023, veio o reconhecimento internacional com a entrada na Historic Hotels Worldwide, coleção que reúne mais de 360 propriedades históricas ao redor do mundo. Para Mazzafera, a essência vai além da hospedagem: "O Fera não é apenas um local para dormir. É um espaço onde os visitantes mergulham na história do Brasil e da Bahia".


